Storytelling e a igreja: o porquê do storytelling – Lição 2

Se eu te disser apenas as seguintes três frases a meu respeito o que você pensará ou achará sobre a minha vida e pessoa? “Meu sonho é morar na Itália”, “Um terno azul marinho é a melhor roupa que um homem pode vestir”, “Dinheiro gasto com comida é um dinheiro bem gasto” e “A família é o bem mais precioso que temos”.
Com certeza, alguns pensamentos como “esse cara não é patriota e ainda por cima deve ser gordo”, “gostar de terno e falar isso sobre família é coisa de gente antiga e tradicionalista” ou “fugir do país em crise é fácil, ficar e lutar por ele é que são elas!”.

Sem problemas, não ficarei chateado se você pensou isso também! Heh. Somos todos seres humanos. E cada um de nós possui pensamentos, caráter e sonhos distintos.

Mas eu, sou filho de uma filha de alemã com italiano e de um filho de baiano, uma mistura tipicamente brasileira sabe? Criado na maior parte dos finais de semana e férias escolares no interior de São Paulo, numa cidadezinha chamada Indaiatuba (na época ela era bem pequena sério! Pelo menos pra mim, heh). Cidade que meu avô, um italianão alto de nariz e pulmões grandes, escolheu para desfrutar de sua tão sonhada aposentadoria, adquirida por mais de cinqüenta anos de serviços prestados à Light, atual Eletropaulo (Cia. de energia elétrica do Estado de São Paulo). De presbítero à diácono, meu avô se converteu meio que durante o “namoro” com minha avó, luterana de carteirinha. Entre aspas por que ele ficou mais de quatro meses apenas acompanhando-a, após os cultos, da igreja até a casa de sua tia, onde ela trabalhava como babá de uma sobrinha.

E num convite dessa tia dela para um café, após quatro meses, um aperto de mão, dois ramalhetes de flores e um bilhetinho, meu avô conquistou a tão difícil alemoa! Heh. Esse mesmo avô me levava na garupa de uma bicicleta azul antiga, daquelas que tinham um grande círculo de ferro no meio do quadro sabem? E uma espécie de alavanca, bem atrás do banco, pra prender sacolas e bagagens que eu insistia em prender meus dedos. Era um avô muito próximo, daqueles que a gente lê em livros de literatura, que colocava todos os netos pra dormir apenas e tão somente após a leitura de um verso bíblico.

Nessas andanças de bicicleta entre parques e padarias meu avô dizia em alto e bom som, misturado com algumas expressões em italiano, que um homem de verdade deveria vestir um bom terno azul marinho, ter uma única e amada esposa, além de bons e fartos pratos de comida sobre a mesa. Como ele cuidou de mim em minha infância, no final de sua vida tive o privilégio, porém duro e também emocional prazer de cuidar dele. Pro meu avô essas coisas eram o significado da felicidade na terra. Felicidade que em algum momento se perdeu, se esqueceu ou que apenas se guardou no meio do Alzheimer, doença que levou meu avô para o encontro de seu criador.

Mas a felicidade do meu avô não parou por aí, seguiu em mim, nos meus sonhos e vontades, e assim, quando tive a oportunidade, fui morar dois meses em Florença pra fazer um curso de gastronomia e me tornei um “chef” amador. Só não encontrei um terno azul marinho que coubesse em mim depois de tanto amor calórico encontrado nos pratos de meus ascendentes.

Com isso, tenho certeza que agora você sabe porque as frases lá em cima me definem e trazem certo significado à minha vida. E que agora elas não tem nada a ver com o que você pensou primeiro. Sabe porque? Por que ao contar uma história expomos situações e mudamos percepções. É por essas razões que fábulas infantis ensinam e educam tantas crianças ao redor do mundo. Através do storytelling podemos vencer pré-conceitos inerentes ao ser humano e trazer a sua memória racional e emocional reais significados e importâncias das coisas corriqueiras da vida. Quem nunca se deparou com alguém enraizado e lotado de preconceitos sobre evangélicos em algum momento de testemunho e/ou evangelização? Contar uma história e, contar bem contado, pode ser a diferença.

Veja outro exemplo, você com certeza deve se lembrar de qual marca o slogan “Impossible is nothing” se refere, não é? Se você tiver alguém que curte futebol por perto então, deve ter gravado na cabeça como eles: é da Adidas!. Esta campanha fez muito sucesso e marcou o despontar da marca (financeira e presencialmente) em meios pura e exclusivamente esportivos. Sabe o que é mais engraçado? Por causa dessa propaganda que muitos do mundo conheceram a história de vida de um jovem jogador que começava a aparecer na mídia; nada mais nada menos que Lionel Messi e a superação de seu problemas com crescimento na infância.

Todas as mídias da época disseram que se travava de um comercial fabuloso, mas todos disseram que não o foi por causa da tecnologia ou da atratividade de seus tênis, nem seria devido a um modelo sexy perfeitamente suado, sarado e descabelado driblando a bola (como em alguns comerciais anteriores e posteriores da marca), mas porque este comercial publicitário contou uma história verdadeira. Tão real e autêntica, que conseguiu tocar e iluminar uma parte de nossos cérebros associada com as nossas emoções e que nos faz sentir algo que deixa a história de Messi, e o conceito da campanha, juntamente de sua marca impregnada em nossas memórias por anos.

Tenho certeza que muitos se lembram ainda hoje, (mais de 9 anos após a primeira veiculação do comercial) que Messi teve um problema com hormônios responsáveis pelo crescimento. Todos nós gravamos em nossas mentes a mensagem de que, por vezes, as coisas ruins da vida, como a morte do meu avô ou a superação de um problema de crescimento, nem sempre são tão ruim assim e podem até resultar em algo positivo (para todos). Nos foi deixada a frase: “Nada é Impossível” ressoando como um grito de glória em nossos ouvidos, e desde então nós associamos a Adidas com esse espírito.

Isso é o porquê do Storytelling: O que podemos lembrar hoje, revela o poder da história que nos foi contada ontem.

Por essa razão devemos aproveitar o poder das redes sociais e da internet não apenas para “pregar” conteúdos em um mural de “share”, mas para contar e narrar nossa marca. Não tome plataformas de mídia social e a internet como outro canal de distribuição, mas sim como um canal de conversação, uma transmissão de experiências, sentimentos, valores, sonhos, fracassos, sucessos, verdades, etc.. Um lugar onde você pode contar a sua história, respeitando sempre a natureza de cada ferramenta ou rede, de forma relacional.

Mas como crentes, você pode se perguntar, qual a nossa marca? Alguns diriam a igreja XYZ ou a Igreja XPTO, mas a nossa marca é a marca do sangue do Cordeiro que se esvaziou por nós e assumindo a forma de servo foi pendurado naquele Madeiro, pra que eu e você fossemos reconciliados com Deus. Que marca! Que história! Que produto! Sinceramente, não querendo trazer a empresa pra dentro da igreja (mas já trazendo de certa forma vai! Heh), 90% dos consumidores e potenciais consumidores não estão interessados em marketing (pesquisa feita pela Nielsen Company em 2014). E ao vivermos em uma sociedade consumerista devemos atingi-los como o são. Eles se preocupam com as promessas das marcas, com a mensagem que a marca nos faz sentir, e como vamos nos ver junto com o resto da sociedade, consumindo essa marca. Portanto, abra um sorriso no rosto de alguém. Conte a história do evangelho e o que ele pode verdadeiramente fazer na vida desse alguém.

Por fim, é interessante perceber como o “mundo dos negócios” sempre se distanciou dos preceitos morais, éticos e bíblicos em seu nascedouro, e com o tempo tem se voltado cada vez mais para os preceitos bíblicos de ética, moral, honestidade e crescimento. Jesus contou parábolas, e agora as grandes marcas estão fazendo o mesmo. Se dá certo pra coisas tão pequenas como as materiais, quem dirá para as espirituais? Jesus provou a mais de dois mil anos atrás…

Assim, este é o “porquê” do storytelling. Mas eu sei que histórias vem e vão, claro. Por isso, na próxima lição falaremos sobre o “como” do storytelling. Fique conosco e até a próxima.

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