Storytelling e a igreja: como fazer storytelling – Lição 3

Você já conheceu alguém em uma festa ou lugar qualquer, que, depois de certos minutos conversando, você se pega imaginando ou se interessando em trabalhar, namorar, ou estabelecer uma amizade com essa pessoa? A resposta para a maioria de nós é: Mas é claro!

Aposto que você também já viu o exato oposto acontecer: diante de uma conversa nada interessante a gente se pega olhando desesperadamente para a porta ou para o relógio, logo após uma pequena e rápida introdução por parte da pessoa desconhecida. Afinal, o que acontece com a gente, hein? Heh.

A medida que envelhecemos, ficamos melhores em saber e reconhecer o que realmente queremos. E, entre trabalho, família, e mil e uma distrações, nós simplesmente não temos mais tempo suficiente para conversar com uma pessoa nova por vinte minutos, se ela não chamar nossa atenção nos primeiros dois.

Então, assim, contamos com a impressão dos primeiros minutos, ou nossas primeiras impressões, para decidir se alguém ou alguma coisa terá mais tempo de nossa atenção. Isso acontece com tudo, desde namoro, entrevistas de emprego, amizade, assistir aquela nova série de TV, escolher uma babá ou estagiário, e até mesmo ler um livro novo. E é por esta razão que autores de sucesso investem em introduções certeiras, concisas e cativantes em seus “Best Sellers”. Não quero aqui levantar a questão dos problemas que este pensamento líquido traz a nossa vida e relacionamentos (deixemos isto para outro post ou reflexão), mas tê-lo como base pra cativar e ser a introdução de nossas atividades, eventos e programações da igreja local.

Sabe onde quero chegar? Num conceito que explica e muito como devemos fazer storytelling hoje em dia, ou como se tornar um storyteller de verdade: o “Elevator Pitch”!

Elevator pitch e as empresas

Resumindo a grosso modo, “pitch” é um discurso de venda, que em sua tradução literal podemos entender como “passo” ou “arremesso”. Na maioria das vezes, quando alguém está falando de startups e usa a expressão “pitch”, ela está se referindo ao discurso que a empresa faz para investidores na tentativa de conseguir investimentos.

Quanto ao termo “elevator pitch”, ele surgiu em Hollywood, onde um roteiro de filme bem feito vale milhões e milhões de dólares. Determinado diretor recebia milhares de roteiros e não conseguia, obviamente, ler todos eles pois estes continham milhares de páginas. Assim, para conseguir vender suas histórias, os roteiristas começaram a contar seus enredos em poucos segundos, ao esbarrar com o diretor no elevador dos grandes estúdios cinematográficos.

O ambiente corporativo percebeu então, de forma muito rápida, que as técnicas desenvolvidas pelos roteiristas para sintetizar 90-120 minutos de história em 90 segundos também poderia servir e muito para o ambiente corporativo. Assim surgiu o conceito de “elevator pitch” dentro das empresas, seja para a necessidade de uma equipe apresentar um projeto para sua diretoria, seja para um fornecedor empreender seus serviços para a área de compras. Hoje até mesmo os empreendedores estão usando as técnicas para apresentar suas promissoras startups para ávidos investidores.

Um “pitch” bem sucedido normalmente se apóia em um “pitch deck”, uma apresentação de slides, que necessariamente deve conter: a) A descrição do problema que a nova empresa, ideia ou história resolve; b) A descrição da solução; c) A descrição do mercado em que se encontra ou pretender atingir; d) Uma apresentação da equipe despendida no trabalho;

Elevator pitch e a Igreja

Já o “elevator pitch” é um tipo específico de “pitch”. É um “pitch” reduzido que só explica sua proposta única de valor e como a sua empresa pretende alcançar resultados. O conceito é utilizado de tantas formas que já faz parte das disciplinas de storytelling nas universidades estadounidenses. Cada aluno deve saber contar sua história utilizando roteiros curtos, com breves períodos de tempo, respondendo a questionamentos como: Qual é o seu discurso de elevador? E se você encontrasse um desconhecido no elevador, o que você diria sobre a sua história?

Se você ainda não entendeu como faz, quero que você preste atenção numa organização que nasceu, se desenvolveu e que continua impactando vidas a partir do storytelling: a I Am Second! Tenho certeza que você já viu algum vídeo deles perdido pela net, mas se não, aqui vai um que me impactou bastante:

Esse movimento digital ou “organização viral” surgiu em dezembro de 2008, tendo como fundador Norm Miller e a e3Partners Ministry, e que se propõe, através de diversas formas de publicidade, em dizer como um indivíduo pode viver de forma diferente. Em particular, o site traz aos leitores vários vídeo-testemunhos de um grande grupo de indivíduos que foram transformados pelo poder de Jesus Cristo (que vai desde esportistas como Kaká e Vitor Belfort à skatistas e músicos como Brian Summer e Brian Welch do Korn) que descobriram o poder de superar vários desafios da vida através da atitude consciente de colocar Jesus Cristo em primeiro lugar. Cada vídeo-testemunho se destaca em corresponder a uma área de assunto específico ou luta comum que as pessoas estão experimentando ou sofrendo ao longo de suas vidas.

E o “elevator pitch” dessa história toda se resume na frase “I Am Second” (Eu sou o segundo). Seu fundador diz que, baseado na palavra contida em João 12:32, em que Jesus disse que ao ser ressuscitado atrairia todos a si, o movimento do I Am Second evidenciaria Cristo em tudo que fizesse, na esperança de atrair as pessoas de sua cidade para Jesus, resumindo a atuação dos testemunhos de seus “Segundos” e que a vida do Cristão deve ser uma constante afirmação do texto que se encontra em João 3:30: “É necessário que Ele cresça e que eu diminua!”.

Logo, não há fórmula mágica, mas você pode começar pensando em como poderia contar sobre a obra redentora de Jesus a um amigo do escritório, no tempo que vocês levam pra descer do 12o andar ao Subsolo na saída do expediente. Na primeira tentativa, o assunto pode ser que não termine e tenha que ficar para o próximo encontro, mas com o tempo você acaba sacando o que chama a atenção dele pelas reações que ele demonstrará. É a mesma coisa com nossas igrejas.

Certa vez, vi uma igreja que “inventou” um certo garoto chamado Timothy, e contava a história de sua vida através de temáticas tratadas nos cultos. Por exemplo, num determinado ano, digamos 2005, o garoto Timothy estava diante do vestibular, e os vídeos e cartazes de divulgação dos cultos mostravam esse momento decisivo de sua vida. Nos cultos dos jovens tratava-se do tema vestibular e como os jovens poderiam vencer a ansiedade do momento. No grupo/culto dos homens travam sobre como tomar decisões em momentos cruciais, e nos grupos/cultos das mulheres discutia-se o papel dos pais na criação e orientação dos filhos em momentos decisivos.

Olha como o storytelling pode ser usado para tratar-mos de assuntos tão corriqueiros e tão comuns a tantas vidas de educações e criações diferentes. Fiquei boquiaberto com a sacada! Imagino, e espero, que o jovem Timothy tenha hoje (em 2016) se casado e diante da chegada do primeiro filho, a igreja possa estudar sobre como discipular um novo integrante na membresia da igreja, como o culto/grupo de jovens discutiria sobre as implicações de um casamento verdadeiramente puro e cristão, como o grupo/culto de homens poderia falar sobre como ser um bom marido e pai diante das alterações/transformações hormonais e corporais de uma mulher grávida, e de como no grupo/culto das mulheres poderia se dividir as experiências da maternidade entre mães “seniors” e mães “juniors” (Heh!), evidenciando como podemos ver a ação de Deus em nossas vidas no amor maternal de cuidado a uma nova vida, por exemplo! Ah, que loko imaginar isso e os vídeos e estratégias pra se falar sobre esses assuntos,…

Elevator pitch e você

A mesma “regra” se aplica à nossas programações. Conte sua história do seu jeito, da forma que alguém num elevador entenderia a temática, objetivo e razão do evento, e não apenas pra juntar uma galera pra ouvir música num mesmo lugar, por exemplo. Lembra que o cerne do elevator pitch é passar sua proposta única de valor e como você pretende alcançar resultados? Temos muito mais a oferecer. As histórias do dia-a-dia são bem mais interessantes do que aquelas forjadas pra exemplificar sermões.

O livramento de um assalto, ou de um acidente automobilístico, podem muito bem ter mais implicações e impacto sobre a vida de alguém, que também tem um carro e dirige por uma cidade caótica e frenética como você. Talvez, o “igrejês” da sua conversão não se compare com a pequena história de que Deus te livrou de algo ruim em um momento conturbado (assalto, acidente, prova, tentação, etc.), afinal a conversão e salvação em Jesus Cristo te livra de algo muito pior (morte espiritual), mas esses conceitos devem ser explicados e vividos ao longo de um discipulado e na caminhada da vida cristã, não de cara no cartão de visitas.

Para um “descrente”, não é o momento nem local pra essa história. E nisso erramos feio. O “elevator pitch” de tempos atrás era o clássico “Para onde você irá, se morrer hoje, agora mesmo, ou após esta nossa conversa?”. E ele funcionava perfeitamente, não tenho dúvidas! Mas hoje, diretor algum compra mais esse roteiro de filme, porque todos já o assistiram ou tem histórias muito parecidas já contadas, gravadas e regravadas.

Não seria a hora de trocarmos esse “approach” e utilizarmos os “elevator pitchs” de nossos dias atuais? Se igrejas e seitas não tão firmadas na sã doutrina atraem milhares de pessoas diversas é porque atendem a necessidade maior de nossos dias: a ausência de relacionamentos verdadeiros e a liquidez do ser humano, que compra tudo novo antes de consertar, desde casamento, móveis, eletrônicos e amizades. Que prefere conversas fúteis e piadas de bar, do que amizade confrontante e intimidade real discipuladora.

Vivemos dias difíceis, mas nossas vidas continuam as mesmas frágeis vidas que vão e vem com o vento. As histórias sim, mudam com o tempo, e mudam vidas para sempre. Conte histórias. Conte a história de Cristo através de sua vida e história. Quem sabe um dia nos esbarramos num elevador por aí com o próprio Cristo. Será que contaremos a sua história de forma certa e precisa pra Ele mesmo?! Fica o desafio e pensamento, até uma próxima.

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